“Mercadores de votos”: quando o voto vira mercadoria, a representatividade perde força

Por Paulo Sergio de Carvalho 08/10/2026 - 08:28 hs
Foto: PSC JORNALISMO VERDADE
“Mercadores de votos”: quando o voto vira mercadoria, a representatividade perde força
“Mercadores de votos”: quando o voto vira mercadoria, a representatividade perde força

As eleições deveriam ser o momento em que o cidadão exerce uma das maiores expressões da democracia: escolher livremente quem irá representá-lo.

Mas, em muitos municípios, o período eleitoral também revela uma prática que há décadas faz parte do debate político brasileiro: a atuação dos chamados “mercadores de votos”.

São pessoas que, principalmente durante as campanhas, passam a atuar como intermediárias entre candidatos e eleitores, utilizando relações familiares, amizades, influência comunitária e contatos pessoais para apresentar determinados nomes ao eleitorado.

O fenômeno ganha ainda mais força em cidades pequenas, onde praticamente todos se conhecem e os vínculos familiares continuam tendo grande peso nas decisões políticas.

O problema começa quando a escolha eleitoral deixa de ser tratada como uma decisão política e passa a ser encarada como uma espécie de negociação.

Em vez de discutir propostas, trajetória, atuação parlamentar e compromissos com o município, o debate pode acabar reduzido a uma pergunta:

“O que eu ganho se votar nesse candidato?”


Quando isso acontece, o voto deixa de ser analisado exclusivamente pelo interesse coletivo e passa a ser influenciado por relações particulares.

É justamente esse tipo de comportamento que alimenta o debate sobre o chamado clientelismo eleitoral.

Existe ainda uma situação recorrente em diversos municípios: pessoas que passaram a morar em outras cidades, mas retornam à terra natal durante o período eleitoral.

Conhecem famílias, possuem parentes, amigos e antigos vínculos comunitários. Durante a campanha, essas relações podem ser utilizadas para mobilizar votos em favor de determinados candidatos.

Não há nada de irregular em um cidadão apoiar e pedir votos para seu candidato.

O problema surge quando o voto é tratado como objeto de negociação, especialmente se houver promessa de vantagem pessoal ou qualquer outra forma de compra de votos.

Nesses casos, não se trata apenas de uma questão política: pode existir uma infração eleitoral, que deve ser comprovada e encaminhada à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público.

E QUEM PERDE COM ISSO?

Quando o voto é transformado em mercadoria, quem pode acabar perdendo é o próprio município.

O candidato eleito passa a ser cobrado menos pela sua capacidade de representar a população e mais pelos compromissos particulares estabelecidos durante a campanha.

E isso gera uma pergunta fundamental: Quem representa a população: o eleitor ou aquele que conseguiu mobilizar mais votos por meio de relações pessoais?

A democracia representativa depende de escolhas livres e conscientes.

Quanto mais o voto estiver vinculado a interesses individuais e menos a projetos coletivos, maior será o risco de enfraquecimento da relação entre eleitor e representante.

O “PREÇO” DO VOTO PODE SER COBRADO DURANTE QUATRO ANOS

Uma reflexão precisa ser feita depois de cada eleição.

·       O candidato recebeu o voto. Foi eleito. E depois?

·       Vai voltar ao município?

·       Vai ouvir as comunidades?

·       Vai apresentar emendas?

· Vai defender recursos para saúde, educação, infraestrutura e agricultura? Vai acompanhar as demandas locais?

Ou desaparecerá até a próxima eleição? Esse é o ponto central.

O voto pode durar apenas alguns segundos na urna, mas o mandato dura quatro anos.

Por isso, a cobrança precisa começar justamente quando termina a campanha.

Criticar os chamados “mercadores de votos” não significa retirar do eleitor sua responsabilidade. Cada cidadão possui liberdade para escolher seus candidatos.

Mas também possui o direito — e o interesse — de conhecer a trajetória daqueles que pretendem representá-lo. 

Quem é o candidato? O que já fez? O que pretende fazer? Qual sua relação com o município? Quais recursos já destinou? Quais compromissos assumiu publicamente?

Essas perguntas são muito mais importantes do que qualquer promessa feita nos bastidores de uma campanha.

DEMOCRACIA NÃO É NEGÓCIO


A eleição passa. Os cabos eleitorais vão embora. Os candidatos retornam às suas bases. Mas a população permanece.

E é ela que continuará enfrentando os problemas do município durante os quatro anos seguintes.

Por isso, o debate sobre os “mercadores de votos” precisa ser ampliado. Não se trata apenas de apontar culpados.

Trata-se de discutir que tipo de representação política a sociedade deseja construir. Voto não é mercadoria. Voto é instrumento de cidadania.

E quanto mais o eleitor compreender a força que possui diante da urna, menor será o espaço para aqueles que tentam transformar relações pessoais e necessidades individuais em moeda eleitoral.